Noites Solidárias, entrevista a Vera Pentieiros

 

Entrevista de Lunah Costa a Vera Pentieiros fundadora do projecto, Noites Solidárias

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1:Em que consiste o projeto Noites Solidárias?

O projeto Noites Solidárias consiste em levar toda a ajuda possível ao maior número de pessoas, sem – abrigo, famílias e pessoas carenciadas, incluindo também os seus animais de estimação. Damos comida, ajudamos a encher a dispensa. Damos apoio emocional, damos-lhes a atenção da qual tanto sentem falta, falamos com eles. Tentamos faze-los sentir que não estão sozinhos, que existe alguém que se preocupa e está lá para o que for preciso.

2: Como surgiu este projeto e quando?

Este projeto surgiu no inicio de 2014, depois de no Natal de 2013 ter feito uma entrega com uma amiga, a Cláudia Lomba. Custou-me imenso, chorei bastante mas aqueles olhares de agradecimento, gratidão, aqueles sorrisos tímidos tocaram-me bastante. Pensei todo o dia nisso e pensei “Fazer isto uma vez por ano é muito pouco, quero mais, vou fazer uma vez por mês”. Comecei em Janeiro de 2014 só com o Nuno e suportava sozinha todas os custos. Só em Junho, dia 23 é que o projeto passou a ter nome(ideia do Nuno), logotipo (feito pelo Rui, marido de uma amiga) e página no Facebook, criada por mim pois já não conseguia suportar os custos sozinha. Depois aos poucos foram surgindo ideias para conseguir fundos para o projeto.

3: Em termos de organização, quantos membros vocês têm e como o projeto está organizado?

O projeto Noites Solidárias é composto por seis elementos : Vera Pentieiros, Nuno Barros, Catarina Cunha, Carla Costa, Pedro Figueiredo e Adriana Figueiredo.

Temos uma base localizada na casa da Carla e do Pedro onde armazenamos os alimentos que nos são doados ou que compramos através dos donativos monetários que nos são feitos. É também aqui que é feita a comida, café e sandes que são distribuídos. Armazenamos também produtos de higiene, roupa, cobertores, etc…


4: Quais são os vossos apoios?

Os nossos apoios são : Padaria da Barca Mindelo  que nos oferece o pão para as sandes, uma senhora que nos oferece rissóis e bolinhos de bacalhau, DªMina que desde o inicio nos ajudou no que podia e não podia, os padrinhos/madrinhas de causa e todas as doações em géneros que recebemos de diversas pessoas.

5: Em que locais fazem as entregas?

As entregas são feitas em várias ruas de três zonas do Porto, são elas : Baixa, Cedofeita/ Hospital S. António e Boavista.

6: Houve algum tipo de triagem para selecionar as pessoas que vocês ajudam?

Não, no entanto já conhecemos algumas pessoas com necessidades especificas e tentamos ajudá-las de uma forma mais personalizada.

7: Como foi o primeiro contacto com estas pessoas?

No inicio existe uma certa desconfiança por parte das pessoas que podem vir a ser ajudadas. De minha parte, além de um profundo desejo de ajudar, houve  um certo receio pois estava a entrar num mundo que não conheço. No entanto até hoje nunca me maltrataram ou faltaram ao respeito.  

8: De que forma tiveram conhecimento das famílias carenciadas?

Tivemos conhecimento de famílias e também pessoas sozinhas carenciadas através do contato que fomos tendo com elas na rua. Algumas dessas pessoas indicavam outras que também precisavam de ajuda.

9: Vocês fazem algum tipo de acompanhamento a essas pessoas? Ou têm    apenas a possibilidade de lhes ajudar em termos alimentares)

Para além da distribuição alimentar, entregamos, sempre que possível, produtos de higiene, roupas e mantas. Temos o número de algumas pessoas, que não morando na rua também precisam de ajuda, uma vez que os seus rendimentos não lhes permitem ter acesso, muitas vezes a alimentos, medicamentos, sendo que muitas têm que optar por um sitio para dormir ou por comida.

10: Quais são as vossas principais dificuldades?

As maiores dificuldades prendem-se com o facto de ainda não termos verbas( ou doações em géneros) suficientes para ajudar todos os que precisam.

11: Segundo o vosso conhecimento, quais são os principais fatores para essas pessoas viverem na rua?

Existem vários fatores, desde a acentuada crise económica, a toxicodependência/alcoolismo, falta de uma politica social adequada, a inexistência de familiares ou a falta de apoio/interesse dos mesmos.

12: Para além do vosso projeto, essas pessoas recebem mais algum tempo de ajuda?

Existem várias associações e particulares que ao longo dos vários dias da semana vão fazendo distribuição e acompanhamento pelas ruas do Porto. Como por exemplo :A legião da boa vontade, Coração da Cidade, Algumas Paróquias, a Dª Emília, etc…

13: Quais são os vossos principais objetivos?

Os principais objetivos passam por tirar o maior número de pessoas da rua e reinseri-los no mercado de trabalho. Fazer chegar ajuda a um maior numero de pessoas, conseguir patrocínios, conseguir ajudar a pagar as rendas ou medicação e garantir que em todas as casas e nas ruas não ande ninguém de estômago vazio.

14: De que forma é possível ajudar o vosso projeto?

Podem ajudar através da divulgação das nossas iniciativas :

- O apadrinhamento da causa

- A compra das pulseiras feitas por nós

- Aquisição de produtos de cosmética na página do facebook Be Unique (o valor reverte inteiramente para o projeto).

- Através do Grupo do Facebook Leilões Noites Solidárias onde 20% de tudo o que é vendido reverte para o projeto.

- Donativos em dinheiro ou em géneros.

15: De que forma surgiu a ideia do evento "Headbang Solidário"?

Inicialmente iria ser um outro tipo de evento, um estilo diferente mas uma amiga, que está inserida num meio onde conhece muitas bandas de Metal, prontificou-se logo a ajudar assim como as bandas que estarão presentes e outras que se prontificarem a ajudar em tudo o que lhes fosse possível. É também importante realçar toda a amabilidade e disponibilidade do proprietário do Metalpoint, o senhor Hugo.

16: Como tem sido a reação das pessoas? Têm boas espectativas?

Temos tido vários tipos de reações. Temos os que são completamente a favor, os completamente contra, os que acham que um projeto como a Noites Solidárias não devia estar associado ao Metal pois pode prejudicar futuramente a credibilidade do projeto. Maioritariamente a resposta tem sido positiva. A meu ver não existe um estilo musical que tenha que estar associado à Noites Solidárias, acho que temos é que agradecer a toda a gente que nos abre as portas e ajuda, como as bandas de Metal, o Metalpoint. Existe todo um misticismo em redor dos metaleiros que pessoalmente eu vejo como falta de conhecimento de causa. Eu convivo com metaleiros, os meus irmãos são metaleiros e são das pessoas mais confiáveis e solidárias que conheço.

As minhas espectativas são por este motivo muito boas, é um passo em frente, um passo muito importante.

17:Sente que ainda há discriminização ? ainda muitos "olhares de canto?

Existe descriminação por vários motivos entre eles : o  não conhecimento exato da realidade, o medo e o facto de haver pessoas que se aproveitam de quem realmente precisa para também beneficiar da ajuda prestada.

18: Essas pessoas mostram vontade para se voltarem a integrar no mercado de trabalho? O vosso projeto auxilia de alguma forma nesse processo?

Sim, mostram. Tentamos ajudar na medida do possível, vamos vendo anúncios para eles, falando com pessoas conhecidas, etc.

19: Qual é a faixa etária das pessoas que ajuda? Há muitos jovens? Idosos também são vitimas desde problema?

Este flagelo abrange todas as faixas etárias. Dois terços dos sem abrigo Portugueses estão em Lisboa, nesta cidade encontra-se a maior percentagem de jovens, sendo que muitos deles são recém-licenciados. No Porto esta situação é menos visível, sendo que as faixas etárias mais afetadas são a meia e terceira idades, maioritariamente homens mas também várias mulheres.  

20: Essas pessoas têm família? Vocês tentam ajudar na aproximação com o seio familiar?

Algumas sim mas encontram-se muitos casos em que é notória a falta de acompanhamento familiar. Estas pessoas contam-nos as suas histórias , não fazendo referência onde se encontra a família. Em alguns casos a pouca família que resta está também numa situação difícil em que não conseguem ajudar.

21: Dentro do grupo de pessoas que ajuda, existem pessoas com problemas de toxicodependência/alcoolismo? Essas pessoas têm algum tipo de apoio para combaterem o vicio?

Sim, existem, não sabemos porém se eles têm algum tipo de apoio para combaterem o vicio, essa é sem dúvida uma das áreas que aprofundaremos.


22: Na vossa opinião, quais são as principais falhas no nosso sistema nacional de ação/serviço social?

Em Portugal existe uma grande desigualdade social. O que nós fazemos é ajudar a combater um problema que podia ser evitado. Façamos um paralelismo  com uma doença, como por exemplo o cancro. Nós fazemos a radioterapia mas a extração do tumor apenas pode ser feita pelo Estado. É necessária uma cooperação estratégica entre Governo, Autarquias e Instituições de cariz social. Se olharmos para alguns países do centro e norte da Europa, vemos que este fenómeno social é praticamente inexistente. São países com taxas de desemprego muito baixas e onde em casos de necessidade o Estado assegura proteção a pessoas sejam elas singulares ou famílias. Esperemos pelo dia que tudo isto possa acontecer no nosso país.

 

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