Entrevista: Wrath Sins

Entrevista: Wrath Sins (Miguel Silva // Voz, Guitarra)

Por: Mário Filipe Pires

Hintf: Primeiramente quero agradecer publicamente a disponibilidade antecipada do novo álbum. Confesso que é desta fórmula que sempre gostei de trabalhar, na base da confiança e respeito. Passando rapidamente para esta curta conversa, para quem ainda não está familiarizado com os Wrath Sins, como se definem como banda?

 M.S.: Antes demais obrigado pelo interesse no nosso trabalho e pela disponibilidade em nos receber. Gosto de pensar que os Wrath Sins definem-se como uma banda “outside the box” no sentido em que exploramos caminhos sem restrições no nosso som. Náo gostamos de rótulos, e sim de fazer aquilo que sentimos e gostamos, partimos de um ponto de partida e as mudanças ao longo da jornada acredito serem bem evidentes o que nos levou naturalmente para reminiscências mais escuras á medida do nosso crescimento como músicos e como pessoas. Somos uma banda com ideias e objectivos bem definidos e que tenta fazer as coisas num nível o mais profissional quanto o país e o meio nos permite em moldes menos convencionais do underground.

 Hintf: Não é caso virgem, mas como surgiu a oportunidade do novo álbum ser editado por duas (2) das mais importantes editoras (Raising Legends // Raging Planet) do underground Nacional? Quais as principais vantagens?

 M.S: Desde a primeira instancia que acreditávamos ter um álbum especial em mãos, á medida que o ia compondo ambicionei leva-lo mais longe e não cometer o erro comum, que passa por um lançamento, meia dúzia de concertos e as coisas acabam por se esfumar infelizmente. Conseguimos apesar da falta de experiência levar o nosso primeiro álbum “Contempt Over The Stormfall” longe e com este queremos alcançar no mínimo o triplo. Após a conclusão da sua gravação, obtivemos uma quantidade mega positiva de feedback vindo um pouco por todo o lado, incluindo do estrangeiro e entretanto através de uma ja existente parceria da RL com a RP, o contacto e interesse surgiu para esta co-edição, o que nos deixou satisfeitos por obter tal reconhecimento e valorização e nos permite abranger um número de público muito maior, já que se tratam como referiste, de 2 das maiores editoras nacionais , situadas em 2 pontos distintos, Porto e Lisboa, sendo que as vantagens são inúmeras a nível de mercado, visibilidade, booking e distribuição.

 Hintf: Embora seja público de uma forma muito subtil, agora já podem revelar o que realmente provocou o adiamento do lançamento de "The Awakening"?

 M.S.: Embora o processo de composição e gravação de “The Awakening” tenha corrido de forma fantástica, infelizmente houve inúmeros contratempos que contribuíram para o seu adiamento, dos quais não conseguimos obter controlo. Sem revelar nomes a razão principal pela qual se deu respectivo adiamento, deveu-se a um atraso de um produtor estrangeiro de renome, que não nos conseguiu entregar masterização no timing definido por ele próprio o que forçou a adiar o lançamento e mais para a frente, cessar contrato com o mesmo. Embora tal sucedido nos tenha causado dissabores, olhamos para o resultado final do mesmo e encontramo-nos totalmente satisfeitos com o responsável pelo trabalho.

Hintf: O processo de mistura e masterização do áudio foi concluído na filial da Raising Legends em Lisboa sob a direcção de Caesar Craveiro (Legacy Of Cynthia). O que motivou recorrerem inicialmente além-fronteiras? Consideram que a solução encontrada foi um passo atrás?

 M.S.: A mentalidade “outside the box” que referi acima, deve-se também a busca pela internacionalização. É inegável a diferença de mentalidades la fora e “The Awakening” tem todo ele uma direção pouco centrada no underground. Sem demérito a todas as fantásticas bandas que por cá possuímos, acreditamos que o nosso som é mais direccionado para um publico la fora ou pelo menos bem mais aceite. “The Awakening” é um álbum com uma complexidade a nível instrumental relevante tornando-o distinto a nível de pormenores o que achávamos que requeria um produtor mais rotinado a trabalhos tipicamente mais complexos a nível de camadas sonoras, dai veio a escolha. Felizmente apesar do azar que se deu com essa opção encontrámos o Ceasar Craveiro dos estúdios ( Raising Legends LX ) que já conhecíamos e revelou estar a altura, numa demonstração de profissionalismo e de qualidade que ambicionávamos desde o inicio, e nos deixou duplamente satisfeitos, pelo trabalho realizado e por encontrarmos a nível nacional alguém com capacidade para executar e projectar um nível de som capaz de rivalizar com estúdios la fora.

 Hintf: O que os fans podem esperar de "The Awakening"? Quais as principais diferenças entre o antecessor "Contempt Over The Stormfall" (2015)?

 M.S.: Acredito que toda a gente que compare os 2 álbuns não encontre grandes semelhanças. Acho que houve uma evolução muito grande da nossa parte como músicos, tanto pela 1ª gravação, como pela tour que se seguiu no ano seguinte. A nível de composição trata-se de um álbum muito mais evoluído, mais atento a detalhe (sempre quis com que requere-se 3 a 4 audições para descobrir tudo o que se esta a passar), “The Awakening” afasta-se mais da veia Thrash de “Contempt…” e escala por meios mais progressivos , mais ambientais, mais orquestrados. Todo ele é conceptual, a interligação faz com que álbum se torne mais interessante e esperamos que embora hoje em dia as pessoas não oiçam álbuns inteiros, que cause minimamente curiosidade para tal e os faça embarcar na jornada. Embora “Contempt” fosse um álbum de transição, “The Awakening” foi completamente composto na ideia de ser um álbum e não um conjunto de músicas e acredito que aliado ao que acima foi dito, tenha feito toda a diferença.

 Hintf: Nas dez (10) faixas que compõem o alinhamento final encontramos vários convidados especiais. Como surgiu essa ideia?

 M.S.: Gosto da ideia de ter alguns inputs especiais a cada álbum, que venha alguém de “fora” e contribua para o “bolo” numa forma que nenhum de nós faria. Em “Contempt” tivemos 3 convidados e cumpriram plenamente esse propósito e em “The Awakening” voltei a acertar nas escolhas. No caso do André Ribeiro, era alguém que já tinha sido cogitado para “Contempt” foi membro de uma das bandas que mais me marcou a nível nacional (Oblique Rain) e todo o sentido melódico sobressai no fantástico solo de “Collision”. No caso do Mário (Legacy Of Cynthia) achamos que a nível técnico seria uma adição de peso para “Fear Of The Unseen”, e Jisus Rocha (Sotz’) além de um amigo muito próximo possui um nível de composição de melodia e ambiente que se destacou em “The Sun Wields Mercy”. Cada uma deles com características distintas e todos eles relevantes nas suas abordagens, que permite incorporar um feeling diferente e refrescante ao longo destes cerca de 50min. de música.

 Hintf: A entrada de Diego Mascarenhas (ex-Fallen Paradise) aconteceu no decorrer deste ano. Porque todas as partes de bateria foram registradas pelo músico de sessão Eduardo Sinatra (Heavenwood)?

 M.S.: O processo de gravação de “The Awakening” iniciou-se em Fevereiro do presente ano, que coincidiu com a saída do nosso baterista de sempre Diogo Marlon, com álbum composto e pré-produção realizada, sentimos que não queríamos passar por inúmeras audições e empancar um álbum que queríamos colocar cá fora. Para la de toda a composição ou recomposição rítmica. Ambicionava ter um timing de álbum para álbum de 2 anos, e consegui cumprir. Acredito que as bandas para obterem relevância requeiram muito trabalho e que tenham que demonstra-lo e nos fazemo-lo. O Sinatra além de um baterista incrível e que achávamos que seria um contributo que colocaria este álbum num patamar acima, foi a nível de feeling um caso único. A nível de detalhe poucos são a nível nacional que incorporem tal, e o resultado está á vista (audição) de todos. A inconstância e o sentimento ao longo da captação fez-me sorrir ao longo do processo, como que tendo a certeza da opção tomada. Apos essa mesma captação decidimos que queríamos um full-member e ao longo de uma serie de audições o Diego sobressaiu como aquele que a nível técnico, pessoal e de mentalidade profissional mais nos revimos. O que permitiu em questões de timing , centrar as audições em “Contempt” e já em “The Awakening” o que ajudou a tomar a decisão mais acertada.

 Hintf: Com cinco (5) anos de existência e dois (2) álbuns lançados, já existe alguma música que vos identifique como banda? Porquê?

 M.S.: Acho que a evolução de uma banda tão activa como nós é tão constante que se torna difícil identificar 1 musica, dito isto penso que a ultima musica que compus para “The Awakening” seja talvez a mais próxima daquilo que virá para um terceiro álbum, será certamente “Shadow’s Kingdom” um ponto de partida e aquela que a nível pessoal e de banda nos conseguimos rever mais a nível de identidade e distinção.

 Hintf: Embora os Wrath Sins sejam um colectivo jovem, já tiveram oportunidade de pisar diversos palcos e conviver com outras tantas bandas. Qual a vossa actual percepção do underground Nacional?

 M.S.: A nossa perceção é um mix de sentimentos. De uma qualidade inabalável o underground nacional possui bandas que em nada ficam atrás de qualquer coisa feita lá fora, mas um problema persistente que não tem fim a vista, tem haver com a mentalidade do público e das próprias bandas. O público continua em termos gerais a olhar para as bandas nacionais como bandas de garagem, feitas por 4/5 amigos para ocupar horas vagas e tocar 1 vez por mês para os amigos e as próprias bandas que em parte só olham para elas mesmas e são incapazes de levar as coisas mais profissionalmente e inclusive de apoiar as restantes do meio. Ninguém pede a ninguém para ser hipócrita (se não gostarem de X banda, não são obrigados a apoiar) mas falamos em termos gerais, num meio que vive de amizades e quem fugir de determinado circulo mais relevante, fica encalhado, num meio já tão pequeno e difícil de ultrapassar. O mesmo acontece com agencias de booking, festivais etc que tratam as bandas nacionais como algo a quem estão a fazer um favor por os colocar em X. Muitas bandas lutam e abdicam do seu tempo familiar etc para se manterem vivas e para lá de lutar com um publico muito ameno, lutar contra as outras bandas e agencias, torna-se cansativo e num meio sem grandes apoios, causa perdas lastimáveis. A qualidade por cá existe e é incrível, mas a mentalidade e a mudança da mesma tem de partir das próprias bandas que são o primeiro “público” das restantes.

 Hintf: Um objectivo a curto // médio prazo? Algo que por qualquer motivo ainda não concretizaram...

 M.S.: Têm sido 5 anos muito intensos e de muita dedicação e trabalho, temos felizmente com esta mentalidade conseguido coisas que nunca pensaríamos conseguir quando começamos a ensaiar na minha sala a dois. Sentimo-nos felizes com o que conseguimos, e acreditamos que a nossa mentalidade seja o ponto mais importante para aquilo que alcançámos, como um contrato discográfico ao 1º álbum, obter interesse de outras editoras ao 2º, e obter a parceria da Raging Planet aliada a Raising Legends, partilhar palco com bandas como R.A.M.P., Web, The Temple, bandas que crescemos a ouvir e ver na televisão, ter artigos na Loud,, ir ao Alta Tensao com o António Freitas, que crescemos a ler e ouvir respectivamente, são coisas que temos noção que 70% das bandas cá não conseguem ou se perdem no processo, a nossa mentalidade e persistência tem dado frutos e com esta mesma mentalidade os objectivos estão bem definidos. O próximo passo passa por colocar este álbum num patamar relevante a nível nacional, percorrer os majores festivais no espaço dos próximos 2 anos, e entretanto desbravar caminho por cá e lá fora. Cada passo ser dado assertivamente e profissionalmente para que as pessoas mesmo que não se identifiquem com a banda olhem para nós com respeito. É o nosso grande objectivo.

 Hintf: A terminar, uma palavra para os leitores da Hintf Webzine e para os vossos seguidores...

 M.S.: Obrigado mais uma vez pela oportunidade de me receberes e pelo constante apoio que nos tem sido concedido. Cada vez mais raras são estas iniciativas e há que valorizar quem luta pela meio como nós e salientar o quão importante estas são. Obrigado a todos pelo tempo disponibilizado a lerem esta entrevista e apoio ao longo destes últimos anos. Esperamos continuar por cá por muito tempo, cada vez com uma maior relevância e mais trabalho a mostrar. Segue-se uma extensa tour a iniciar no início de 2018 e contamos convosco ao longo dela. Obrigado! 

 

Entrevista exclusiva de Mário Filipe Pires para Hintf WebZine / Som do Rock