Entrevista a Luis Salgado (Vagos Metal Fest)

Entrevista a Luis Salgado (Vagos Metal Fest)

Entrevistado: Luis Salgado

Por: Margarida Salgado

Foto: Facebook

 

 

Após a conclusão de mais um Vagos Metal Fest fomos conversar com o Luis Salgado para percebermos a perspetiva da organização sobre este último ano.

 

  SR: Começando pelo início, explica-me um pouco de onde surgiu a vontade de dar continuidade a um festival em Vagos?

 Luis Salgado: Nós estamos exatamente no sítio onde a ideia surgiu. Foi aqui no Stairway a meio da noite em conversa. Estávamos mais ou menos a acompanhar o que se estava a passar na altura como toda a gente estava e como sabes nós também estamos ligados à organização de eventos há bastante tempo com a Amazing Events e sempre foi um sonho conseguir ter um festival e surgiu a ideia de fazer uma proposta à Câmara Municipal de Vagos. A grande vantagem penso eu que tínhamos era poder fazer a edição ainda naquele ano. Segundo consta eles tiveram outras propostas e ao principio, penso eu, eles não estavam a acreditar que nós iriamos conseguir fazer logo a primeira edição em três meses, mas o que explicamos foi que a parte da organização de eventos, a parte da organização das bandas não era um comboio que iria iniciar, era um comboio que já estava em andamento, portanto para mim não seria assim tão difícil. Ok, a parte logística foi difícil, tivemos a sorte de conseguir uma grande equipa, conseguimos bons profissionais a trabalhar no evento em si e a parte de bandas também foi importante, acho que conseguimos ali um bom rol de bandas que estavam disponíveis. O resto é sempre o público que o faz e acho que o público estava ali a querer que aquilo acontecesse, não queria estar um ano parado e isso notou-se. Foi uma simbiose. Da nossa vontade, da vontade do público e da parte profissional ter corrido bastante bem.

 

 SR: E quais têm sido as maiores dificuldades em manter um festival desta dimensão?

 Luis Salgado: A maior dificuldade e é uma grande dificuldade para todas as pessoas que trabalham comigo é a minha ambição para o festival. Porque obviamente que eu sabia o historial do festival, mas não queria ir para lá fazer mais do mesmo. Queria colocar o meu cunho pessoal e queria que o festival crescesse, não só a nível nacional até porque a nível nacional ele já era uma referência, mas eu queria um bocadinho mais e acho que faz falta a Portugal um festival ser referencia também a nível europeu. E essa se calhar é a grande dificuldade, de fazer com que haja ali uma convergência de todas as pessoas do metal e também do rock. O festival, para mim, não é apenas uma experiência só de um género de musica tem que ser também uma experiencia de vida e essa é a grande dificuldade, o fazer com que aquilo cresça, estabilize e que as pessoas entendam que aquilo é mais do que um festival de música, também é essa tal experiencia e a comunhão que para mim é a grande vantagem de Vagos, a comunhão das pessoas. É o juntarem-se ali uma vez por ano e terem as férias descansados. Obviamente que a música é importante e está lá e por isso também tem que se manter a qualidade das bandas. Por isso a maior dificuldade é mesmo a minha ambição e fazer com que o festival cresça na minha perspetiva.

 

 SR: Este ano houve uma alteração no formato com mais um palco e mais um dia. O objetivo foi mesmo esse? O colocar o teu cunho pessoal, tentar fazer o evoluir o festival?

 Luis Salgado: Essa parte não é minha é do Ivo. Ele o ano passado é que decide colocar um segundo palco e aumentar um dia… até que se fosse por mim eu não o faria. Mas o Ivo falou e explicou a ideia dele à equipa… e pensamos: Ok, na parte da estabilização iremos estar mais um ano a aprender, isto vai haver aqui muita aprendizagem, como houve, mas ao mesmo tempo ia de encontro à tal ambição que estava a falar. Acho que não houve ou já há muito tempo que não havia um festival assim desta envergadura, com quatro dias, dois palcos e ao mesmo tempo se queremos mostrar à Europa que temos cá um festival deste tamanho… quase todos os festivais da Europa não se baseiam só num palco, baseiam-se em dois ou mais… e a esse nível a alteração para este formato foi uma aposta ganha. Nós gostamos bastante da dinâmica que trouxe os dois palcos e acho que o pessoal consegue aguentar os quatro dias, não apenas o público, mas também os profissionais pois o nosso trabalho começa muito antes e acaba muito depois. Foi uma aposta ganha, tenho que dar os parabéns ao Ivo por isso e para o ano é para manter.

 

 SR: Achas que este formato funciona em Portugal então?

 Luis Salgado: Sim, acho que tem tudo para funcionar. O feedback que temos tido até agora é positivo. Vamos reduzir um bocado o número de bandas. Vamos alterar algumas questões de horários. Por exemplo no último dia vai terminar no headline, não vai haver bandas a seguir, portanto acaba em clima de festa. Vamos reduzir algumas slots tanto na quinta feira como nos outros dias. Vamos começar um bocadinho mais tarde ou se calhar dar mais tempo a algumas bandas. Também estamos a preparar uma edição melhor a nível de qualidade do cartaz em que se calhar faz mais sentido dar mais tempo a algumas bandas e não estar a meter outras… e pronto essa mudança vai acontecer.

 

 SR: Com 4 dias não tens receio que as pessoas optem apenas por virem só 2 dias ou 3, que já “compensa” a viagem em vez de virem os dias todos do festival?

 Luis Salgado: Pois, não sei… nós até tivemos em cima da mesa a opção de ter o bilhete só para 2 dias ou 3, mas a verdade é que aumentamos um dia e o número de bandas e pouco ou nada alteramos o valor do bilhete em relação ao ano anterior, por isso nesse sentido não há assim um prejuízo para quem não possa ir os 4 dias. Nós realmente achamos que aquilo que queremos passar lá para fora, que em Portugal há um festival de metal que possa ser considerado de grande dimensão passa por ter os 4 dias. Eu compreendo que haja pessoas que não possam vir os 4 dias ou porque trabalham ou assim, mas a verdade é que também há muita gente que quer vir os 4 dias e uma das grandes apostas que vamos fazer para o ano é o mercado estrangeiro. E para as pessoas que vêm de fora, se calhar faz mais sentido irem e passarem os 4 dias ou mais.  Nós vamos tentar vender essa imagem porque poderemos não ter o cartaz do ano a nível europeu, mas também temos muitas coisas boas, ou seja, temos um bom cartaz, temos preços acessíveis, temos o campismo grátis, estamos numa zona com uma beleza natural única, temos as praias que também facilmente se chega lá, temos a comida… para as pessoas que vêm de fora terem a experiencia dos 4 dias, já pode ser considerado umas férias de Verão. E para o ano acho que vamos conseguir o aumento dessas pessoas que já este ano tivemos, para grande surpresa minha, uma vez que não apostámos assim tanto na publicidade exterior a Portugal, mas a verdade é que vendemos para muitos sítios do mundo: Estónia, India, Brasil, Canadá… comprarem o bilhete para virem a um festival em Portugal de metal é gratificante.

 

 SR:  Nessa perspetiva também de férias temos visto cada vez mais o festival ser uma opção de família e consequentemente o número de crianças presentes estar a aumentar. Vai haver uma adaptação por parte do festival a este público, tanto a nível de segurança como a nível de entretenimento?

 Luis Salgado: Nós temos essa noção e desde o primeiro ano que isso era uma preocupação minha. Mas para avançar com isso, com um ter um ATL que é a minha ideia não é à toa, é uma responsabilidade muito grande. Em termos de segurança o plano está feito para se uma criança se perde ali no recinto deixam de ser permitidas entradas e saídas, ou seja, a prioridade será sempre encontrar a criança. Felizmente nunca aconteceu. Mas isso é um fator que nos preocupa, porque nós queremos obviamente ter lá cada vez mais crianças, mas também temos que fazer com que as condições para elas sejam asseguradas e essas condições são muito diferentes das condições para um adulto. Condições alimentares, salvaguarda do sol… a preocupação é grande e a responsabilidade que acarreta também é grande e eu tenho mais medo de fazer mal do que não fazer. Mas começamos a pensar agora em fazer. O festival sempre foi um bocado família, mas agora e este ano já se começou a notar e temos que nos habituar que não vai ser só família. Que a família se mantenha, nós somos o núcleo duro, mas vai começar a haver novas tribos, novas pessoas e novas mentalidades e por isso para o ano já vamos implementar uma parte especial de apoio às crianças ou aos pais que já era para ter sido feito este ano, mas que eu não senti que havia ainda ali a segurança que eu necessitava para avançar, que era ter um espaço onde as crianças possam estar entretidas a brincar e haver um controlo sempre do número de crianças que estão lá dentro e dos próprios pais. Apesar de nós sabermos o tipo de pessoas que somos e eu acredito piamente em todos nós e o civismo do metaleiro está à vista, não só nessa parte como na parte ambiental também, temos que ir de encontro à necessidade dos pais e das próprias crianças e para o ano isso vai acontecer. Também estamos a desenvolver contactos para tampões auditivos e a tentar que as próprias pulseiras do festival sejam repelentes e estamos à espera de resposta de empresas que nos possam ajudar com os custos que isso também envolve.

 

 SR: No encerramento referiste que os números tinham ficado um bocadinho aquém das tuas expetativas pessoais. Agora que a poeira de Vagos já assentou mais um bocadinho o que é que achas que poderia ter levado a isso não se ter concretizado ou o que pensas que possa ter corrido menos bem para que isso não acontecesse?

 Luis Salgado: Eu não acho que o festival tenha corrido mal. Aí junta-se um bocado a conversa de há pouco sobre a minha ambição. Porque nós este ano até tivemos o maior número de pré-vendas dos três anos e muito superior mesmo. Obviamente face o número que tinha dos anos transatos e depois com a pré-venda que tinha este ano, obviamente que pensei: ok, isto se correr tão bem como correu nos outros anos nos próprios dias vai ser uma edição histórica. E esperava chegar ao número dos 20000 que era o que pretendia, mas obviamente que também já sabia que ia ter 17/18000 entradas nos quatro dias, mas queria um bocadinho mais. Se calhar o dia que ficou um bocadinho aquém foi o sábado porque os outros até correram bastante bem. O sábado foi um dia normal que pensei, exatamente por ser sábado e ser aquele dia que as pessoas conseguem ir, que fosse ser tão forte como foi o domingo ou a sexta ou até mesmo a quinta que para um dia de semana foi forte. Obviamente que esteve lá muita gente no sábado, faltava aquele bocadinho que eu precisava…

 

 SR: No encerramento também referiste não achar que tivesse alguma coisa a ver com o cartaz o fato de não teres atingido esse objetivo. Mas achas que no sábado pelo menos possa ter sido essa a razão?

 Luis Salgado: Não sei… também nesse aspeto quando decidimos pegar no festival e colocar o nosso cunho pessoal sabíamos que o Vagos estava direcionado para um estilo de metal ou pelo menos para alguns subgéneros de metal e a minha ideia era trazer um bocadinho de outros géneros para o festival e temos estado a conseguir meter sempre outras coisas e criar ali um público novo e este ano isso foi conseguido que também é uma parte muito importante. Tivemos muita gente que foi a primeira vez a Vagos e que no ano passado também já tinha acontecido. Este ano não sei porque sábado era um dia mais direcionado para um género de metal mais clássico, mas que sempre foi um dos géneros principais do público de Vagos. Nos outros anos sempre correu muito bem. As bandas também tinham visitado Portugal há pouco tempo e também pode ter sido por aí. Quando tens um cabeça de cartaz e um co-headline que visitaram o país há pouco tempo, se calhar arriscamos a isso. Mas pronto, o número esteve lá e era o número que necessitávamos para que aquilo fosse uma boa moldura… mas se calhar aquele extra… pode ter sido por aí, não sei…

 

 SR: Em relação aos problemas com a qualidade do som e às falhas de som e de luz, na tua perspetiva, o que achas que são situações incontornáveis e o que foram situações de aprendizagem? O que é possível melhorar?

 Luis Salgado: O trabalho de técnico de som nunca é fácil, ao ar livre ainda menos. Mas o que acho importante o público saber são se calhar alguns fatores. E eu também sou público. Há ali bandas que eu também queria ver e também não gostei do som e eu sou a primeira pessoa a tentar chegar lá e perceber o que está a acontecer. Nós o ano passado tivemos muito boas críticas em relação ao som e este ano a empresa era exatamente a mesma. O trabalho foi muito bem feito, eu gosto muito do equipamento deles é equipamento topo de gama e o trabalho está lá e a equipa é extremamente profissional, uma das melhores em Portugal. Além do clima, o vento até às vezes a humidade, muita coisa pode influenciar o som. Por exemplo, nós não conseguimos controlar o técnico de som da própria banda. Eles trazem os técnicos que querem e nós não podemos chegar lá e impor a nossa vontade. No caso dos Enslaved por exemplo, à última da hora quiseram experimentar um sistema de munição diferente. Para nós é um bocado chato e inglório e ingrato também que acabamos por levar com as críticas e às vezes a culpa nem é nossa ou da equipa que contratámos. Nem tudo passa por nós e a vontade da banda a nível de som é que prevalece e eles é que têm a última palavra a dizer. Vamos estar sempre dependentes da qualidade dos técnicos de som , a qualidade de som que a banda quer, que muitas vezes eles pedem porque gostam do som mais “sujo” por exemplo … e outras vezes tem a ver com a posição onde a pessoa está a ver/ouvir. Há bandas que têm o som mais concentrado à frente e outras têm o som mais concentrado atrás… e pronto, vamos ter que viver sempre com isso. Da nossa parte é tentar fazer sempre o melhor e a nível de material, pelo menos, estar lá tudo e isso está.

A parte das falhas técnicas sim podem ser imputadas à Organização, foi uma falha de medição de energia. Nós até tínhamos reforçado a nível de geradores e a nível local também, a única diferença foi colocarmos outro palco e o momento onde as coisas falhavam era quando a outra banda que estava a fazer o ensaio de som no outro palco puxava também pelo sistema de luz. Aquilo não aguentava e tivemos que nos adaptar e conseguimos resolver depois o problema. Tivemos aqueles dois primeiros dias em que vacilamos um pouquito, entretanto percebemos onde estava o problema e ficou resolvido e para o ano esse problema não vai existir porque agora já sabemos donde é que vem. Já falamos, já tivemos a reunião técnica e está resolvido. Também não há outra maneira de fazer aquilo sem ser uma banda estar a tocar e a outra estar a fazer o ensaio de som.

 

 SR: O que podemos esperar para 2019?

 Luis Salgado: A próxima edição vai manter este formato. Os principais objetivos do próximo ano serão trazer mais pessoas de fora, do estrangeiro, melhorar a qualidade do cartaz e alterar os horários para que algumas bandas possam tocar mais tempo. Já percebemos que há bandas que o pessoal gostaria de ver mais tempo, apesar das pessoas também terem que entender que é um festival e não dá para ter concertos de três horas. Haverá mudança de atividades no recinto, ou seja, outras atividades para além dos concertos. Em breve iremos revelar os dias que não vão fugir muito daquilo que tem sido feito até hoje e vamos também anunciar passado pouco tempo um cabeça de cartaz bem como algumas bandas que já fazem parte do certame do próximo ano. Vamos tentar aumentar a sinergia com os hotéis e restaurantes da zona que até hoje não conseguimos explorar porque é algo que carece de algum tempo e dedicação.

 

 

SR: Obrigada!

 

Entrevista exclusiva de Margarida Salgado / Som do Rock