Entrevista a Alex VanTrue por DICO

 

Alex VanTrue

“Acho que vou proporcionar grandes momentos televisivos”

 Cantor, multi-instrumentista e produtor talentoso, Alex van True desenvolve há uma década uma profícua carreira musical apoiada nos espetáculos dos seus vários grupos de tributo (com especial destaque para os One Vision, que homenageiam os Queen). Vocalista dos X-Size, notabilizou-se ainda por fazer versões de temas conhecidos de Música Popular Portuguesa, um dos quais levou a concurso no programa televisivo “The Voice”, atualmente em transmissão. O Som do Rock falou com o músico, cuja carreira teve início no Metal extremo.  

 

Texto: Dico | Fotos cedidas pelo entrevistado

 Tanto quanto julgo saber, começaste a tua carreira musical num grupo de Death Metal, correto? Fala-me dos primórdios da tua carreira.

Mais ou menos. A minha carreira teve início em 1996 com colegas de escola. Eu era guitarrista, mas como não tínhamos ninguém para cantar acumulei ambas as funções. Antes disso já tinha querido ser baterista, pianista, vocalista...Mas um dia, quando estava a observar um poster do Kirk Hammett [guitarrista dos Metallica] na tour do Black Album [assim mundialmente conhecido, embora seja o álbum homónimo dos Metallica] decidi que queria ser guitarrista! [risos]. Essa minha primeira banda tinha quatro originais, os restantes temas eram apenas covers dos Nirvana e Metallica. Demos um concerto e acabámos [risos]. Depois, toquei num grupo de Black Metal. Só tínhamos um tema original, o resto eram covers dos Cradle of Filth, Sepultura e Slayer. Esta banda também não durou mais do que um concerto. [risos]

Depois disso passei a concentrar-me só em originais death/thrash metal e formei os Wright, em que compunha praticamente todo o material. O grupo teve duas fases, entre 2000/2001 e 2004/2008, mas boa parte desse tempo esteve parado. Nem uma demo decente conseguimos gravar. Se demos 15 concertos foi muito. Nessa altura fiquei bastante desiludido com a música. Ao contrário de mim, o pessoal não levava a banda a sério. Eu sempre vi a música como uma profissão, portanto remar sozinho contra a maré desiludia-me bastante.

Felizmente para mim, em 2005, formei os One Vision -Tributo aos Queen, e fui finalmente reconhecido pelo que sempre quis - a música! Conheci malta bastante profissional. Comparecem todos aos compromissos à hora marcada sem ser necessário telefonar-lhes.Todos cumprem. Uma maravilha! Os One Vision salvaram-me a vida. Se não fosse a banda, há muito que teria desistido da música.

 

És bastante multifacetado, dominando vários instrumentos, bem como técnicas de gravação, mistura, etc. Como desenvolveste estas capacidades?

Como te disse, sou muito direcionado para a música. E quando um gajo está sozinho tem de se safar, não é? [risos] Conforme referi, comecei por ser guitarrista mas pouco depois comecei a cantar. Melhorei muito enquanto vocalista graças aos One Vision. Foi graças a esta banda que comecei a tocar piano. Felizmente, através do YouTube e de alguns outros sites, em pouco mais de um mês consegui aprender a tocar o instrumento. Tocar piano era algo que sempre quisera fazer. Quanto aos outros instrumentos, dou uns toques de baixo e de bateria, mas nada de extraordinário.

Em relação ao mixing, tudo começou nos Wright, quando eu misturava as ideias em casa para a banda ouvir. Na época ainda não tinha conhecimentos a esse nível pelo que o resultado foi bastante precário. Felizmente, ao longo de dois anos, pude tirar um curso de áudio profissional/técnico de som, tendo obtido o know-how de que necessitava.

 

Tens atuado ao vivo com vários projetos de covers, nomeadamente Slash'n'Roses e One Vision. Face à crescente concorrência, o atual circuito de bares em Portugal permite que os músicos obtenham um rendimento satisfatório?

Depende se um gajo é ganancioso ou não [risos]. Hoje em dia, atuo muito raramente em bares, porque simplesmente já não existem. Bares de música ao vivo que possam financiar (justamente!) uma banda estão praticamente extintos. Se consultar a minha lista de concertos nos últimos 10 anos, sobram dois! E devo ter tocado em quase 50 bares diferentes...Os meus tributos de maior sucesso - ABBA Mia e One Vision - tocam maioritariamente para comissões de festas ou câmaras municipais. E os Slash N' Roses seguirão o mesmo caminho. Só assim é que um gajo se safa...

 

Quais são, essencialmente, as tuas ambições para com os X-Size? Os planos da banda incluem uma aproximação ao mercado internacional?

Acho que os planos de qualquer banda portuguesa passam pelo mercado internacional. Em Portugal não há nada. Infelizmente, como raras pessoas apoiam as bandas nacionais, os estrangeiros julgam que em Portugal se faz exclusivamente merda e não nos ligam nenhuma. Há coisas muito boas no nosso País!

Como ambições, claro, gostava que os X-Size tivessem grande projeção internacional. Apesar de ser pessimista, trabalho muito para que tal aconteça. Não deixo nada ao acaso, tudo é pensado ao pormenor. Considero os X-Size uma banda muito profissional. São músicos de alto nível e que põem a banda à frente de tudo.

 

Em geral, os fãs e músicos de Metal levam-se demasiado a sério. Na opinião de muitos, Metal e humor não combinam, mas tu já mostraste que não é bem assim. Fizeste excelentes versões de temas do Clemente (que, inclusive, interpretaste no concurso “The Voice Portugal”) e Marco Paulo, e inclusive da série Dragonball, que nos remetem para o humor mas provam que se pode brincar sendo simultaneamente profissional. Como vês a reação do público a estas versões?

Não fiz essas versões numa de palhaçada ou paródia. Fiz a minha versão heavy das músicas, na onda do Power Metal para o Clemente e Marco Paulo e na onda dos Slayer para o Dragonball. Esses temas não foram simples de cantar nem tocar. Posso dizer-te que cada versão destas envolve cerca de 16 horas de trabalho, só para o áudio. Normalmente fico sem voz durante uns dias e nunca mais consigo fazer os solos tão bem [risos].

A reação dos fãs a essas versões foi extraordinária! A versão do Clemente foi apreciada pelo próprio e passou em bares, discos e festas municipais. Ainda hoje recebo vários mails a elogiarem esse trabalho! As versões do Marco Paulo e do Dragon Ball já não tiveram o mesmo sucesso, mas não fiz videoclip para esses temas. Pode ter sido essa a causa. Quando não fazes vídeos és ignorado! O problema é que cada vídeo ocupa-me mais de 12 horas de trabalho…E faço-os sempre sozinho, portanto não há paciência.

 

Apesar de tudo, no contexto deste género de versões tens outras ideias para o futuro? Por exemplo, ponderas a gravação de um EP/álbum que reúna estes e outros temas ou fá-lo meramente para te divertires e vais mantê-los estritamente online?

Pedem-me muito para fazer isso, mas não acredito que seja viável. Sou da época do CD e gosto que tudo o que faço seja em suporte físico. E isso tem custos... Não sei responder-te. As versões são muito trabalhosas. Apesar de ter bastantes, apenas duas são de música popular portuguesa. E é isso que as pessoas querem ouvir. Ninguém quer saber de versões de temas de Lady GaGa ou Del Shannon.

 

Suponho então que, neste momento, não te encontres a trabalhar em nenhuma versão nova.

Não! Tenho sempre muitos concertos no Verão [esta entrevista foi realizada ainda no verão] e é raro arriscar-me a ficar sem voz nas gravações. Prefiro poupar-me e dar um bom espetáculo do que ter views no YouTube.

Gostava de fazer mais algumas versões destas, mas para já não! Talvez no Inverno...depende do meu estado de espirito. Estas gravações são quase sempre impulsivas. Decido na hora o que fazer e fico a madrugada a trabalhar. Pode ser que os fãs tenham sorte.

 

Já existem ideias para um novo álbum dos X-Size ou a banda continuará a investir mais algum tempo os seus esforços na promoção ao vivo do álbum?

Existem ideias, sim. Temos uma música pronta e quatro assim-assim. Vamos ver o que o tempo dirá. Para já, temos planeado para Outubro, lançar em CD a reedição do nosso álbum de estreia, com várias participações especiais. Ao invés das 10 músicas da primeira edição, serão 16 ou 17! Espero que caibam num só CD!

Sobre a promoção ao vivo do álbum, fizemos a 1ª parte do Paul Di'anno [ex-vocalista dos Iron Maiden] e um concerto no Hard Rock Cafe. Não damos mais concertos porque discordamos da política de tocar à borla como forma de promoção. É tudo uma grande conversa para explorar as bandas, e eu não lido nada bem com isso. Se não há dinheiro não se faz. Porque é que os empregados do bar, os de limpeza, os seguranças, os técnicos, a SPA, a PassMusica e toda essa gente é remunerada pelo seu trabalho mas os grupos que tocam temas originais não recebem?

Quais são as tuas expectativas quanto à tua participação no concurso ”The Voice Portugal”?

É algo que nunca pensei fazer. Não sou nada fã deste género de entretenimento, mas que se lixe [risos]. Acho que vou proporcionar grandes momentos televisivos e fugir ao normal nestes programas! A malta que me acompanha vai curtir, de certeza. Não estou à espera de ganhar, mas de fazer chegar o meu

nome a mais pessoas. É isso que me interessa, mas digo-te já que não é fácil... Já dei aproximadamente 700 concertos e se fiquei nervoso três vezes foi muito. E no “The Voice” fiquei. Ganhei respeito pela malta que tem tomates para o fazer!